“Emergência Radioativa” retrata caso real chocante que, segundo vítima, foi distorcido pela Netflix: plataforma se defendeu
A estreia de “Emergência Radioativa” na Netflix abriu feridas que ainda não cicatrizaram em Goiânia. Odesson Alves Ferreira, uma das vítimas do trágico acidente com o Césio-137, em 1987, não poupou críticas à série. Para o ativista, a produção falhou ao tentar transformar a dor real em entretenimento comercial.
Vítima do Césio-137 detona “Emergência Radioativa” na Netflix
“A deturpação dos fatos históricos não foi apenas um erro de narrativa, considero um desrespeito profundo com a memória das vítimas e de nós que sobrevivemos, mas que muitas vezes morremos devido ao acontecimento”, desabafou Odesson, ao Metrópoles.
Irmão de Devair Ferreira, dono do ferro-velho onde tudo começou, Odesson afirma que a trama buscou floreamentos desnecessários. “Quando se alteraram o fato histórico trágico por conveniência, para tornar a trama mais científica e comercial, cometeram um crime contra a verdade. A história real que vivemos não precisa de floreamentos sensacionalistas, ela foi trágica por si só”.

Odesson alerta que a falta de compromisso com a verdade pode criar uma “falsa memória coletiva”, prejudicando a imagem de quem foi, na verdade, prejudicado por um sistema irresponsável. “Transformaram vítimas em vilões, minimizaram a tragédia para gerar audiência. A negligência na pesquisa demonstra um descaso inaceitável”, disparou.
“O resultado? Uma falsa memória coletiva. A verdade histórica importa sim. A memória precisa ser protegida. Não vamos aceitar passivamente que a história seja reescrita por conveniência, pois quem ignora o passado da forma como ele realmente foi, está condenado a repetir seus erros”, acrescentou, em seguida.
Vítimas não foram consultadas em “Emergência Radioativa”
Outro ponto que gerou revolta foi a falta de participação dos sobreviventes no projeto. Marcelo Santos Neves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, revelou que ninguém da entidade foi consultado.
“Não fomos ouvidos para a gravação da série, que é baseada na nossa história. As gravações nem aconteceram em Goiânia, foram feitas em São Paulo. Como é que você faz uma obra contando essa história e não chama quem realmente viveu tudo isso?”, questionou.
Além disso, o fato de a série ter sido gravada majoritariamente no interior de São Paulo, em cidades como Campinas, Sorocaba e Cabreúva, também virou alvo de polêmica. O Conselho Municipal de Cultura de Goiânia defende que filmar na capital goiana traria mais representatividade e ajudaria a economia local.
O que diz a Netflix?
Em nota, a Netflix se defendeu, afirmando que consultou especialistas, médicos e físicos que atuaram no acidente, além de ouvir pessoas que vivenciaram a tragédia para construir os personagens. Sobre as gravações longe de Goiás, o diretor Fernando Coimbra explicou que o desafio era reconstruir a Goiânia de 1987.
Segundo ele, a capital mudou tanto que ficou difícil achar cenários fiéis à época, com “muros baixos e ruas de terra”. Por isso, optaram por cidades paulistas que ainda guardam esse ar retrô, usando apenas imagens aéreas e externas da verdadeira Goiânia para compor o visual.

“Eram muitos os desafios, e um dos principais foi como reconstruir a Goiânia de 1987. Na época, era uma capital ainda jovem, com forte influência do ambiente rural ao redor. Os locais onde viviam essas pessoas tinham casinhas com muros baixos e ruas de terra”, explicou.
“Emergência Radioativa” está disponível no catálogo da Netflix.
