Sobreviventes do desastre nuclear com o Césio-137 em Goiânia vivem momento de angústia e abandono
A estreia de “Emergência Radioativa”, minissérie em alta na Netflix, trouxe de volta um dos capítulos mais sombrios do Brasil: o acidente com o Césio-137, em Goiânia, em 1987. Para quem viveu o horror na pele, a produção é mais do que entretenimento: é um grito contra o esquecimento das autoridades.
Tudo começou com um aparelho de radioterapia abandonado, levado por dois catadores até as mãos de Devair Alves Ferreira. O brilho azul encantou a todos, mas o perigo era invisível. O saldo foi trágico: 249 contaminados e quatro mortes imediatas, incluindo a pequena Leide das Neves, de apenas 6 anos.
Como estão os sobreviventes do desastre com o Césio-137
Lourdes das Neves, mãe de Leide, retratada na série como Celeste, é uma das vozes que relata o abandono progressivo. De acordo com a vítima, a assistência completa que recebiam no início desapareceu com o passar dos anos.
“Antes a gente tinha toda a assistência. Ganhava medicação, podia ser o preço que fosse. Tinha o salário, tinha a cesta básica, tinha tudo. Depois saíram cortando”, relatou Lourdes, em entrevista ao portal Metrópoles.

Hoje, a luta principal é financeira. As pensões estão sem reajuste há sete anos. Recentemente, surgiu uma proposta do governo de Goiás para elevar o valor de quem teve contato direto com o material de R$ 1.908 para R$ 3.242. Atualmente, mais de mil pessoas ainda dependem do Centro de Assistência ao Radioacidentado (CARA).
Polêmica com a Netflix
Se na tela a história emociona, nos bastidores o clima é de tensão. Marcelo Santos Neves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, revelou que ninguém que viveu a tragédia foi consultado pela produção. Para piorar, a série sequer foi gravada em solo goiano, mas sim em Osasco e Santo André (SP).
“Como é que você faz uma obra contando essa história e não chama quem realmente viveu tudo isso?”, questionou Marcelo. Embora a Netflix afirme ter usado especialistas para garantir a fidelidade histórica, as vítimas contestam.

Segundo a associação, a equipe de produção até visitou Goiânia em busca de referências, mas ignorou o contato com os sobreviventes. Vale lembrar que a ameaça ainda existe: toneladas de lixo radioativo seguem em um depósito em Abadia de Goiás e o Césio-137 pode durar até três séculos no ambiente.
“Emergência Radioativa” está disponível no catálogo da Netflix.
