Historiador esclarece aspectos mitológicos e históricos presentes em “A Odissiea”
A adaptação de “A Odisseia” chegou aos cinemas e gerou muita curiosidade sobre o poema épico de Homero. Entre tantos aspectos que envolvem uma das obras literárias mais antigas da humanidade, saber o que é real e mito é um dos primeiros pontos de partida para entendê-la.
Em entrevista ao Zappeando, o historiador Marcos Valer, autor do livro “O Império Ameaçado”, esclarece os detalhes dessa narrativa.
O que é real e mito na história de “A Odisseia”?
O poema épico de Homero, “A Odisseia”, é uma das obras mais antigas da humanidade. Por isso, a narrativa gera dúvidas sobre o que espelha a realidade da época e o que se trata apenas de mitos e crenças.

“‘A Odisseia’ é uma obra que combina elementos históricos e mitológicos de forma inseparável”, revela Marcos Valer sobre a trajetória de Odisseu.
O poema de Homero, assim como alguns pontos da adaptação de Christopher Nolan, apontam para vestígios do mundo grego no final da Idade do Bronze e do início da Idade do Ferro.
“O poema retrata costumes, valores e instituições da sociedade grega antiga: a organização dos palácios, a importância da hospitalidade (xenia), a honra (timé), a busca pela glória (kleos), a estrutura familiar, a navegação pelo Mediterrâneo e as relações entre reis e guerreiros”, explica o historiador.

Valer ainda ressalta como a Guerra de Tróia, essencial na trama do poema e do filme, traz a própria veracidade histórica.
“A própria Guerra de Tróia, que serve de pano de fundo para a narrativa, provavelmente possui um núcleo histórico, preservado pela tradição oral e parcialmente corroborado pelas descobertas arqueológicas realizadas desde o século XIX”, destaca ele sobre a existência desse conflito na região.
Além da parte histórica, que foi comprovada em partes por pesquisas, a mitologia é muito presente no poema. Inclusive, os deuses são parte importante da cultura e história da Grécia.
“O componente mítico está presente em praticamente toda a jornada de Odisseu. Ciclopes, sereias, Circe, Calipso, Escila, Caríbdis e as constantes intervenções dos deuses pertencem ao universo da mitologia grega. Para os antigos, porém, essas narrativas não eram vistas apenas como fantasia, mas como formas de explicar o mundo, transmitir valores e refletir sobre a condição humana”, diz Valer.

O historiador ressalta como a importância de “A Odisseia” está diretamente ligada com a mistura desses dois aspectos da Grécia, a história e a mitologia.
“A força da Odisseia reside exatamente nessa fusão: um universo historicamente reconhecível em seus costumes, instituições e conflitos, enriquecido pela imaginação mítica, que transforma a viagem de Odisseu em uma metáfora atemporal da própria experiência humana”.
E, apesar de se tratar de um poema tão antigo, a adaptação da obra de Homero levou milhares de pessoas ao cinema, para conhecer ou reviver a narrativa do retorno de Odisseu para sua casa.
“Os grandes clássicos nunca deixam de falar sobre o ser humano. Embora ‘A Odisseia’ tenha sido composta há cerca de três mil anos, seus temas continuam profundamente atuais: desejo de voltar para casa, saudade da família, fidelidade, coragem diante das adversidades, tentação do poder, busca pela identidade e necessidade de encontrar um propósito para a própria vida”, ressalta Valer.

“Por isso, considero que toda adaptação séria de um clássico merece ser valorizada, mesmo quando faz escolhas com as quais não concordamos”, completa o historiador.
“Talvez essa seja a maior prova da grandeza de Homero: cada geração sente a necessidade de contar novamente a mesma história, porque ela continua dizendo algo essencial sobre a condição humana”.
“A Odisseia”, filme de Christopher Nolan, está em cartaz nos cinemas brasileiros.

