Filmes 12 de agosto, 2026 Por Mariana Pacheco

O que mudou em “A Odisseia” em relação ao poema de Homero: historiador explica fatos abordados no filme

Adaptação de Christopher Nolan no cinema teve erros e acertos, segundo historiador, em entrevista exclusiva

A estreia de “A Odisseia” nos cinemas despertou um interesse na mitologia e história grega, além de trazer à tona discussões sobre o poema épico de Homero. O filme de Christopher Nolan gerou críticas e elogios, mas também causou dúvidas sobre a abordagem do diretor em relação à obra original.

Em entrevista ao Zappeando, o historiador Marcos Valer autor do livro “O Império Ameaçado”, destacou os méritos e erros na nova abordagem da trajetória de Odisseu

O que mudou em “A Odisseia” em relação ao poema de Homero?

(Crédito: Reprodução / Universal Pictures)

“A Odisseia” se tornou a maior bilheteria da carreira de Christopher Nolan, diretor renomado de Hollywood, além de virar assunto em diversas regiões do mundo.

“O maior mérito da adaptação de Christopher Nolan talvez não esteja na fidelidade ao poema de Homero, mas no impacto cultural que conseguiu provocar. Poucas produções recentes despertaram tanto interesse pela Grécia Antiga, pela mitologia e pela literatura clássica quanto ‘A Odisseia’. Milhões de pessoas que jamais haviam lido Homero passaram a discutir o poema, pesquisar seus personagens e conhecer melhor uma das obras fundadoras da civilização ocidental”, destacou o historiador.

“Sob esse aspecto, Nolan alcançou um resultado admirável: transformou um poema com quase três mil anos em um fenômeno cultural contemporâneo”.

Apesar do impacto cultural de “A Odisseia”, Valer acredita que o filme teve problemas importantes em relação ao original. Inclusive, Emily Wilson, a classicista e tradutora do poema de Homero, que teve o livro usado de base para o roteiro, se tornou uma das críticas mais severas da adaptação.

“O maior erro de Christopher Nolan foi a diminuição do poder feminino no filme”, admite Valer. Na adaptação, o diretor deu pouco destaque às personagens femininas, que aparecem como coadjuvantes. Além de deixar de fora da trama, a Princesa Nausícaa, que representa parte importante no poema original.

Matt Damon e Zendaya (Crédito: Reprodução/Universal Pictures)

“‘A Odisseia’ não é apenas a história da jornada de Odisseu de volta para casa, é também uma narrativa profundamente moldada pelas mulheres que cruzam o caminho dele. Cada uma delas representa uma força distinta e indispensável para o desenvolvimento do herói. Foi a importância da mulher no mundo da civilização Micênica que Homero tanto valorizou no poema que Nolan não soube traduzir”, complementa o historiador.

A personagem Circe, interpretada por Samantha Morton, foi uma das personagens menos valorizadas, na visão do historiador. “Circe não é apenas uma feiticeira. Ela simboliza o conhecimento, a transformação e o amadurecimento de Odisseu, preparando-o para os desafios que ainda enfrentará”, relata Valer com referência na obra original de Homero.

Valer ainda destaca as personagens Calipso, vivida por Charlize Theron, que “representa a tentação da permanência, o conflito entre a felicidade imediata e o dever de cumprir o próprio destino”, e Atena, interpretada por Zendaya, que mostra “a inteligência divina que acompanha o herói do início ao fim da narrativa, guiando suas decisões, protegendo-o e recompensando sua prudência”.

(Crédito: Reprodução/Universal Pictures)

“No poema de Homero, essas personagens possuem personalidade, autonomia e influência decisiva sobre a narrativa. Elas não existem apenas em função do protagonista; são verdadeiras agentes da história, cada uma exercendo uma forma distinta de poder: intelectual, espiritual, político ou afetivo”, explica o historiador.

Já na adaptação de Nolan, essas figuras foram representadas de formas mais sutis, sem grande complexidade e com participações breves.

“Ao minimizar personagens como Circe, Calipso, Atena e até mesmo Penélope, Nolan empobrece um dos pilares da Odisseia. O filme privilegia a aventura, a ação e o espetáculo visual, mas sacrifica parte da riqueza simbólica, psicológica e humana que fez do poema um dos maiores clássicos da literatura universal”, opina Valer.

Além da diminuição do papel das mulheres na história, outra mudança significativa está relacionada aos deuses. No poema de Homero, essas figuras da mitologia grega aparecem com frequência e interferem no destino de Odisseu.

“O filme, por sua vez, privilegia uma leitura mais humana e psicológica da história, tornando essas intervenções mais discretas e simbólicas”, afirma.

(Crédito: Reprodução/Universal Pictures)

Historiador comenta mudança no final de “A Odisseia”

Entre tantas mudanças para condensar a narrativa e transformar o poema em cinema, uma das alterações mais surpreendentes feitas no filme foi o encerramento da história.

No filme, Odisseu e Penélope partem juntos em uma nova viagem para homenagear os mortos nas terras do Ocidente e são exilados de Ítaca após o herói descumprir a lei de Zeus.

Já na obra, Homero encerra o poema quando Odisseu recupera o próprio reino e derrota os pretendentes. Ele reencontra o pai, Laertes e, em seguida, enfrenta os familiares dos pretendentes, que buscam vingança pela morte de seus parentes. Mas, o conflito é interrompido por Atena, que restaura a paz e a ordem em Ítaca.

“Esse desfecho possui um profundo significado simbólico. A Odisseia é, acima de tudo, a história do nostos, o retorno ao lar. Após vinte anos de guerras, naufrágios, perdas e provações, a maior conquista de Odisseu não é iniciar uma nova aventura, mas recuperar aquilo que havia perdido: sua casa, sua família, seu reino e sua identidade”, detalha o historiador.

(Crédito: Reprodução/Universal Pictures)

Valer ainda ressalta que, apesar de trazer um final impactante, Nolan alterou a mensagem central deixada por Homero em “A Odisseia”.

“Do ponto de vista cinematográfico, o final concebido por Nolan é belo, poético e visualmente impactante. Do ponto de vista literário, ele altera a mensagem central da obra. Homero não escreveu uma história sobre um homem condenado a viver eternamente em viagem. Escreveu sobre um homem que atravessou o mundo para descobrir que nenhuma glória supera o valor do lar. É justamente essa ideia que transformou a Odisseia em um dos maiores clássicos da literatura universal”, completa o historiador.

“A Odisseia” está em cartaz nos cinemas brasileiros.

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