“Sandokan”, em alta na Netflix, foi baseada em história real?

Em alta na Netflix, “Sandokan” teve possível inspiração em história real, marcada por batalha épica

“Sandokan”, série italiana em alta na Netflix, se passa no século XIX e acompanha as aventuras do pirata Sandokan para proteger a si mesmo e a sua tripulação do Império Britânico. A produção, eventualmente, gerou curiosidade sobre se basear em história real, estreando como adaptação da atração homônima, lançada em 1976, uma das mais famosas já exibidas na TV da Itália.

“Sandokan”, na Netflix, se baseia em história real?

Ambientada no século XIX, Sandokan mergulha em uma odisseia de resistência e paixão nas águas perigosas do Sudeste Asiático. O lendário pirata malaio (Kabir Bedi), portanto, dedica sua vida a proteger sua tripulação e o povo indígena Dayak da opressão implacável do Império Britânico.

No entanto, o curso de sua rebelião muda drasticamente ao cruzar o caminho de Marianne (Carole André), a filha do cônsul britânico em Labuan. O que nasce como um encontro fortuito em meio ao caos político transforma-se em um amor proibido entre mundos opostos.

“Sandokan” (Crédito: Reprodução/Netflix)

Porém, a felicidade do casal fica ameaçada pela sombra de Lorde James Brooke, um caçador de piratas obstinado. Ele busca não apenas a cabeça de Sandokan, mas também o afeto de Marianne. Apesar de criar uma atmosfera realista, “Sandokan” não se baseia em uma história verídica.

O pirata, desbravador dos mares do Império Britânico no Sudeste Asiático em meados do século 19, inspirou diretamente a série, mas é uma criação de Emilio Salgari (1862-1911), escritor italiano, especializado em narrativas de aventura. O protagonista, por exemplo, aparece em 11 livros.

Sandokan, eventualmente, se tornou conhecido como o temido Tigre da Malásia, nome que ecoa pelos mares do sul da China. No entanto, o autor criou o pirata com base na figura real do capitão naval espanhol Carlos Cuarterioni Fernández

Inspiração por trás de “Sandokan”

Conforme o portal CILISOS.my, há um registro histórico de uma guerra bastante semelhante à história de origem do herói pirata, em que Sarawak, sob o comando de James Brooke, se aliou ao Sultão de Brunei para derrotar um rei pirata em 1845 — episódio conhecido como Batalha de Malludu.

“Sandokan” (Crédito: Reprodução/Netflix)

Sob sua lente própria, a historiografia britânica enxergava os piratas de Bornéu como a principal ameaça ao comércio na colônia de Sarawak, então sob o domínio do Rajá Branco, Sir James Brooke. No centro desse conflito emergiu Syarif Osman, um líder de ascendência árabe com fortes conexões com a realeza de Sulu, que governava seu próprio enclave pirata na Baía de Malludu.

Registros da época, como o British North Borneo Herald de 1886, apresentam Osman como um carrasco implacável: os relatos o acusavam de extorquir nativos, saquear frotas mercantes e comercializar cativos Um relato notável menciona que, em 1845, ele teria incendiado o navio Sultana e vendido vinte de seus tripulantes como escravos.

Como terminou a batalha de Sandokan

A tensão atingiu o ápice quando Brunei firmou um tratado antipirataria com a Grã-Bretanha, levando Syarif Osman a ameaçar uma ofensiva direta contra a região. Quando os reforços navais britânicos finalmente chegaram para apoiar James Brooke, Syarif não recuou. Pelo contrário, fortificou sua base na Baía de Malludu e lançou um desafio, incitando os britânicos a tentarem um ataque contra sua fortaleza.

“Sandokan” (Crédito: Reprodução/Netflix)

Sem hesitar, as forças britânicas avançaram com todo o seu contingente sobre a Baía de Malludu. Embora tenham saído vitoriosos, os oficiais britânicos registraram sua profunda admiração pela bravura e pelo porte impecável dos combatentes malaios. Em um raro gesto de cavalheirismo militar, o exército vencedor aplaudiu a coragem dos rivais e, após o cessar-fogo, um voluntário chegou a hastear novamente o estandarte de Syarif — uma bandeira vermelha adornada com um tigre.

Quanto ao destino do líder pirata, paira o mistério: o consenso é que ele sofreu ferimentos graves, mas as versões divergem entre uma morte heroica no front ou uma fuga desesperada seguida de um óbito tardio em Kudat. Como ninguém identificou o corpo oficialmente, a morte permanece envolta em lendas.

Quem foi Sandokan?

Embora as semelhanças entre Sandokan e Syarif Osman sejam visíveis — ambos eram piratas temidos, portavam estandartes de tigre e viram James Brooke devastar suas terras — outra figura parece ter inspirado verdadeiramente o herói.

O autor provavelmente moldou o personagem a partir de Sabah, o confidente mais próximo de Syarif, que compartilhava sua fúria e traços de personalidade no combate aos britânicos. Segundo a tradição oral da região, Sandokan (conhecido localmente como Sindukung ou Sandukar) era o guardião das cavernas de Gomantong.

Curiosamente, seu nome carrega uma etimologia profunda: deriva de um termo de Sulu que significa penhor, referindo-se à época em que o território de Sandokan foi empenhado pelo Sultão de Sulu para quitar uma dívida.

A pesquisadora Dra. Bianca Gerlich destacou em um estudo de 1998 que, provavelmente, Salgari ouviu histórias sobre o norte de Bornéu durante seu breve período como aprendiz de marinheiro, em Veneza. O escritor, em seguida, criou seu romance, produzido três anos antes dos registros britânicos sobre a Batalha de Malludu serem publicados oficialmente, em 1886.

“Sandokan” está disponível no catálogo da Netflix.

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