O que é real e o que foi adaptado para a ficção em “Hamnet”

Maggie O’Farrell optou por dar voz ao menino que a história esqueceu em drama sobre a vida de Shakespeare que passa pelo real e pela ficção

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, baseado no livro de Maggie O’Farrell, que também colaborou no roteiro, transforma um dos episódios menos documentados da vida de William Shakespeare em um drama intimista. Dirigido por Chloé Zhao, o filme se tornou um dos favoritos na temporada de premiações, vencendo como Melhor Filme de Drama no Globo de Ouro 2026.

Saiba o que é real e o que é ficção na história!

“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”: o que é real e o que é ficção

Filhos de William Shakespeare

William Shakespeare (Paul Mescal) e sua esposa, Agnes (Jessie Buckley) — que se chamava Anne Hathaway, segundo alguns registros — realmente tiveram três filhos: Susanna (a primogênita), nascida em 1583 e os gêmeos Hamnet e Judith, de 1585, interpretados, respectivamente, por Bodhi Rae Breathnach, Olivia Lynes e Jacobi Jupe.

Dos três, o garoto foi o único não passou da infância: morreu aos 11 anos, em agosto de 1596, acometido pela peste bubônica. O registro de seu enterro é um dos poucos documentos oficiais que restaram. O filme, portanto, se apoia em personagens reais, mas toma liberdade ficcional para preencher lacunas na história com fatos não comprovados.

(Crédito: © 2025 FOCUS FEATURES LLC)

Casamento polêmico

Também é verídico que Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon, se casou e formou família, viajando para Londres, onde fez carreira como ator e escritor. No entanto, o filme ignora o fato da esposa, com quem viveu um relacionamento à distância entre as duas cidades, ser oito anos mais velha, criando traços para Anne, retratada como uma mulher ligada à natureza.

Os dois se casaram quando Anne já estaria grávida da primeira filha, Susanna, algo que gerou polêmica na época. De acordo com biógrafos, o casamento foi anunciado somente uma vez pela Diocese de Worcester, em vez de habituais três vezes, como era costume na sociedade. Além disso, não há evidência histórica de que a verdadeira esposa do dramaturgo fosse uma “bruxa” ou curandeira.

(Crédito: Agata Grzybowska/© 2025 FOCUS FEATURES LLC)

Quando Shakeaspeare escreveu Hamlet

Shakespeare escreveu a tragédia Hamlet cerca de quatro anos após a morte de seu filho. Naquela época, os nomes “Hamnet” e “Hamlet” eram grafias intercambiáveis para a mesma pessoa. O dramaturgo, no entanto, nunca comentou publicamente sobre a perda.

Entre a despedida do filho e a primeira apresentação de Ham­let, em torno de 1600, Shakespeare ainda levou outras doze peças aos palcos, de modo que é impreciso afirmar que o trabalho tenha sido concebido como “literatura de cura”, como o filme dá a entender.

Não existem cartas, diários ou relatos contemporâneos que confirmem que Shakespeare escreveu a tragédia como resposta ao luto. Apesar das incertezas históricas, a proximidade cronológica entre os eventos, a homonímia entre o filho e o protagonista e o cerne da obra — um filho confrontado pelo luto paterno — sugerem uma conexão profunda.

(Crédito: Agata Grzybowska/© 2025 FOCUS FEATURES LLC)

Shakeaspeare usava brinco

O fato de Paul Mescal usar brinco para gravar “Hamnet” deu o que falar entre o público e gerou questionamentos se seria, de fato, um detalhe baseado em fatos reais. Na vida real, Shakeaspeare considerava o acessório indispensável, algo comum entre os boêmios, o que ficou claro em seu único retrato já registrado.

Em contrapartida, diálogos, cenas familiares detalhadas, conflitos de casal e qualquer representação simbólica que conecte espiritualmente Hamnet à peça Hamlet são ficção assumida pela autora. Com poucos registros históricos para se basear, Maggie O’Farrell optou por amarrar pontas soltas com aquilo que considera mais próximo daquela realidade.

Causa da morte de Hamnet

Embora a Peste Bubônica fosse comum na época, a causa exata da morte de Hamnet é desconhecida. A autora descreve detalhadamente como a peste chegou à casa deles via pulgas em um navio de Alexandria — uma construção puramente ficcional para ilustrar o acaso trágico.

Na trama, Judith fica doente primeiro e Hamnet “troca de lugar” com ela, morrendo, portanto, para que a irmã possa viver. Esse acontecimento é totalmente ficcional e não existem registros que a gêmea tenha adoecido na mesma época e corrido risco de vida como o garoto.

(Crédito: Agata Grzybowska/© 2025 FOCUS FEATURES LLC)

Por fim, o filme e o livro descrevem alguns momentos dramáticos sobre a ausência de Shakeaspeare no velório do próprio filho. Por outro lado, não se sabe se ele conseguiu viajar de Londres a Stratford a tempo para o enterro, vivenciando um longo período de luto após a notícia.

“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” está em cartaz nos cinemas.

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