Ao interpretar Carminha da nova novela “Dona Beja”, da HBO Max, Catharina Caiado viveu o mesmo encontro com um corpo com curvas que a personagem
A personagem Carminha, de “Dona Beja”, da HBO Max, parece ter encontrado Catharina Caiado antes mesmo da atriz saber do papel que tempos depois aceitaria fazer.
Um dos autores da novela viu Catharina dançando e, nela, viu Carminha, uma jovem fora dos padrões de beleza e comportamento do seu entorno, oprimida pela mãe e que no desenrolar da história descobre uma nova identidade.
Carminha de “Dona Beja”

A história de “Dona Beja” se passa na cidade de Araxá, Minas Gerais. O enredo narra acontecimentos e costumes do século 19 e da época do regime imperial brasileiro.
“Carminha está ali em um modelo de sociedade muito pequeno e muito restrito. A mãe queria que ela tivesse mais dotes, fosse mais delicada, mais jeitosa e prendada”, explica Catharina em entrevista ao Zappeando.
A relação de mãe e filha é construída entre demonstrações de cuidado e ataques ao jeito e também à aparência de Carminha, que é uma mulher com curvas.
“Tem um desejo dessa mãe de proteger, eu acho. Ela machuca com muito medo de que a filha sofra, na verdade, o que talvez ela já sofreu um dia, por ser uma mulher também com curvas.”
Transformações de Carminha

“A gente nunca sabe se o personagem entra no corpo da gente ou se a gente que entra no corpo do personagem”, afirma Catharina.
A atriz precisou dar seu corpo à personagem em um momento em que não se reconhecia mais nele. Mãe de uma menina de 7 anos, a atriz ganhou peso ao parar de amamentar. Ainda no puerpério, ela também precisou encarar o luto pela perda de uma grande amiga e, na sequência, a pandemia da Covid-19.
“Carminha chegou em um momento da minha vida de muita ferida feminina. Eu estava ali, talvez com dificuldade de aceitar aquele novo corpo que se apresentou pra mim, e, de repente, ela apareceu.”
A história da personagem está longe de se resumir a uma jovem fora dos padrões que sofre com as críticas da mãe. É, na verdade, uma “pincelada” do que acontece nas primeiras cenas de Carminha até o quarto episódio, onde trocas de olhares e um elogio ousado e inesperado a levam a se encarar na frente de um espelho.
“Pra mim, a cena do espelho é um rasgo de tudo que estava confinando Carminha. Eu acho que tem muito medo ali, tem muito perigo. Quando ela se olha no espelho e sorri, segurando o próprio peito, tocando a própria pele, ela, na verdade, está se encontrando pela primeira vez.”
Esse encontro com o próprio corpo marca uma reviravolta na história de Carminha. E marcou também uma transformação na vida de Catharina.
Reencontro com o próprio corpo

Ao assistir a cena pela primeira vez, eu, a repórter Gabriela Brito, como espectadora, fui conquistada por Carminha e, como jornalista, quis logo saber mais sobre a atriz por trás da personagem.
Já Catharina encontrou um defeito no próprio corpo.
“Eu só consegui olhar pra minha bunda. Lembro de ir pra casa com essa sensação de que eu não queria olhar pra essa autocrítica, queria olhar pra outras coisas na cena. [Entendi] que talvez tivesse um trabalho a ser feito ali.”
Para Catharina, muitas atrizes gostam de ter curvas, mas, ao mesmo tempo, sentem medo de serem escaladas sempre para os mesmos tipos de papéis e histórias por conta do corpo.
“Eu sinto que essa discussão é muito mais sobre o corpo poder ser livre do que como ele deve ser, sabe?”
Em meio aos próprios questionamentos e à construção da personagem, a atriz aceitou que aquele era o corpo que ela tinha naquele momento e que era por conta dele que ela poderia contar a história de Carminha.
“Sinto que eu saio dessa novela com muita cura, com muita aceitação. Carminha me ensinou muito sobre brincar, que eu acho que é algo que eu tinha esquecido um pouco pelo caminho, e me lembrou muito de que a gente se transforma sem parar, de que a vida está sempre em movimento, assim como o corpo. Carminha me trouxe de volta para o meu corpo.”
Do teatro ao audiovisual

Catharina tem 37 anos e uma extensa carreira no teatro, mas só nos últimos anos aceitou de fato se aventurar no audiovisual. A pandemia iniciada em 2020 e um desejo do ator Johnny Massaro influenciaram.
“Eu me vi sem capacidade mesmo de viver a vida que eu vivia. E eu acho que, a partir dessa dificuldade, veio o enfrentamento de um desejo que estava ali disfarçado de medo pelo audiovisual.”
Nessa mesma época, Johnny adaptou a peça “A Cozinha” para o cinema, mantendo o elenco original, que incluía Catharina.
O longa foi a estreia do ator na direção e marcou os primeiros passos da atriz na estrada do audiovisual.
Desde então, Catharina também participou de obras como a novela “Família é Tudo”, da TV Globo, e o curta-metragem “Dependências”.
“Dona Beja” já estreou na HBO Max, e os novos capítulos são lançados às segundas-feiras.


