Das páginas psicológicas de Alice Feeney para a Netflix: principais mudanças entre as duas versões de “Dele & Dela”
Se você devorou o livro “Dele & Dela”, lançado por Alice Feeney no Brasil em 2024, e espera encontrar uma cópia fiel na Netflix, prepare-se para algumas surpresas. A produção optou por caminhos que tornam a experiência de quem lê e de quem assiste curiosamente distinta.
Enquanto o material original mergulha nas camadas sombrias e psicológicas de Anna Andrews (Tessa Thompson) e Jack (Jon Bernthal), a série acelera o passo, trocando o isolamento da Inglaterra rural pela vigilância constante de uma pequena cidade na Geórgia.
Confira as principais mudanças!
“Dele & Dela”: o que muda entre o livro e a série da Netflix
Mudanças no cenário de “Dele & Dela”
A transição das páginas para as telas trouxe uma alteração geográfica significativa: a saída de Blackdown, na Inglaterra, para a cidade de Dahlonega, na Geórgia, nos Estados Unidos. Enquanto o livro utiliza o isolamento europeu para construir segredos sufocantes, a série da Netflix aposta no contexto cultural dos EUA para dar um novo fôlego à trama.
Em mudança que vai além da estética, ao trocar o silêncio inglês pelo conservadorismo explícito e a religiosidade do sul americano, a narrativa transforma o isolamento em vigilância social. Em Dahlonega, o julgamento não é apenas sussurrado, ele é público e constante, elevando a tensão da exposição dos personagens.

Nova perspectiva para a série da Netflix
O livro original alterna capítulos entre “Dele” e “Dela”, focando profundamente no monólogo interior e nas mentiras de cada um. A série, dividida em episódios, utiliza uma narrativa mais direta e visual, com flashbacks e mudanças de tempo para construir o suspense.
Nesse meio tempo, leitores relataram que o livro entrega mais camadas psicológicas dos personagens, permitindo entender melhor as motivações de Anna Andrews e Jack. A série, por ser uma adaptação, torna o desenvolvimento um pouco mais acelerado em comparação à profundidade psicológica do livro.
A vítima central: um novo mistério
Enquanto o livro utiliza o assassinato de Hayley para desenterrar os segredos de Blackdown, a série da Netflix redefine o tabuleiro ao colocar Rachel Hopkins (Jamie Tisdale) como a vítima central. Essa troca não é apenas nominal, afinal redesenha toda a rede de suspeitos e reorganiza as motivações por trás do crime.

Embora o propósito dramático permaneça o mesmo — forçar o confronto com o passado — a série utiliza essa nova configuração para criar pistas falsas inéditas, alterando entre quem sabia o quê e quem carrega o peso da omissão.
Anna Andrews: a queda da estrela nacional
A protagonista também ganha novos contornos na adaptação. Se no livro Anna é uma jornalista retornando às raízes para enfrentar traumas, na série sua persona é ampliada para a de uma ex-âncora de TV de projeção nacional. Essa mudança acentua o contraste entre sua imagem pública gloriosa e sua fragilidade íntima.
O retorno a Dahlonega torna-se, então, um espetáculo local de julgamento. A série, entretanto, simplifica a bagagem traumática da personagem: enquanto na obra original Anna lida com o alcoolismo e as cicatrizes de um pai abusivo, a produção da Netflix opta por focar mais no peso de sua queda profissional e na exposição constante.

Desfecho e revelação final
Embora as obras sigam caminhos distintos, ambas convergem para o mesmo plot twist: a revelação de que a mãe de Anna é a peça fundamental para solucionar o quebra-cabeça. No entanto, a forma como essa verdade é entregue ao público muda drasticamente entre as mídias.
No material original, o desfecho é construído de forma psicológica e subjetiva, exigindo que o leitor conecte pistas sutis e fragmentos de memórias. Já na versão da Netflix, a execução ganha um tom mais novelesco e expositivo: o mistério é resolvido através de confrontos diretos e o uso de flashbacks explicativos, garantindo que todas as pontas soltas sejam amarradas visualmente para o espectador.

A série, portanto, mantém o clima de desconfiança típico de Alice Feeney, mas ajusta a ordem dos acontecimentos e a revelação do assassino para impactar o espectador no formato plot twist de TV. A adaptação para a Netflix é descrita como um “fast food” de suspense, mais rápida e direta, focando na tensão da investigação, enquanto o livro é uma imersão lenta na mente dos personagens.
“Dele & Dela” está disponível no catálogo da Netflix.

