Há um terço de século, Stanley Kubrick lançou “O Iluminado” e mudou a face do horror moderno. Exceto que ele não mudou, pelo menos não inicialmente. “O Iluminado” sofreu uma enxurrada de críticas e, inicialmente, uma decepção financeira. Mas ao longo dos anos o filme ganhou estatura, e seu lançamento parece um bom ponto de partida para nossa jornada pelos 33 anos seguintes do cinema de horror. Veja os seis melhores filmes que foram lançados desde então!
“Cidade dos Sonhos” (2001)
Sim, se encaixa no gênero de horror, como a maioria dos filmes de David Lynch: poucos diretores são tão hábeis em colocar seu inconsciente na tela, em todas as suas fraturas temporais, dissonâncias repentinas e harmonias repentinas. Esse é uma obra-prima psico-noir, na qual Lynch lembra dos vales de Hollywood e dos carros e óculos escuros das celebridades, ironicamente, entre aspas – exceto pelo sonhador do sonho que nunca está sorrindo, então você nunca sabe quando (ou se) rir. O filme flerta com o famoso “quem é o culpado” – e é isso que faz o seu horror – o roteiro se estilhaça, se dobra em si mesmo, e começa a forjar um novo conjunto de conexões. Papéis se invertem, identidades se alteram, coisas que não fazem sentido fazem menos sentido ainda – e, de repente, fazem mais sentido.
“O Silêncio dos Inocentes” (1991)
“O Silêncio dos Inocentes”, de Thomas Harris, é o padrão-ouro dos livros de serial killer, e cimentaram o fetiche forense na cultura pop, mas o diretor Jonathan Demme trouxe algo diferente para o filme. Esse é um dos poucos filmes de horror feitos por um humanista – um diretor cuja morte de cada personagem é como se fosse uma morte na família. Não é a história de Hannibal Lecter que importa, nem Grand Guignol: as simpatias de Demme estão ligadas na jovem agente do FBI (Jodie Foster, carregando a bagagem de “Taxi Driver” e John Hinckley) que luta para superar seus demônios, tanto pessoais quando sociais. O choque é que ela faz isso com um mentor, Lecter (Anthony Hopkins), que é ele mesmo a personificação de tudo que ela tem medo – que a deixa mais forte e ao mesmo tempo alimenta-se dela.
“A Mosca” (1986)
Essa pode ser a obra-prima de Cronenberg. Começa bem no meio de uma conversa entre o invertor charmoso e excêntrico Jeff Goldblum e a bela e corajosa jornalista Geena Davis, e nunca deixa registrado: o que foi apresentado como um remake hi-tech de um filme dos anos 1950, nas mãos desse diretor exigente, vira um drama sobre desejo, consumo, ciência, nojo, sexo e morte. É belamente livre e internalizado, como se o filme tivesse acontecendo dentro da cabeça de alguém – entendível para um filme que é parcialmente sobre tentar fazer a mente científica e mecânica compreender a beleza imprevisível (e o horror) da carne.
“Donnie Darko” (2001)
O filme cult de estreia do diretor Richard Kelly conta como um filme de horror? Sim, especialmente se você ignorar o corte ao pé da letra e vibe sci-fi do diretor (que é desastroso e arruina grande parte da narrativa elegante do filme). Em sua versão teatral, “Donnie” é um dos melhores filmes sobre o famoso enredo dos filmes de horror: adolescente do subúrbio e um mundo onde a violência e o mal parecem espreitar a toda esquina. Em uma das cenas mais bonitas do filme, Donnie vai ao cinema assistir “Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio”. Olhe para a projeção, contudo, e o que mais está passando? “A Última Tentação de Cristo”. Por mais que seja um filme de horror, “Donnie Darko” é algo como um conto moderno sobre Cristo – uma história sobre um jovem que redime o mundo horrível no qual vive, e, ao fazer isso, acha uma beleza real nisso.
“A Bruxa de Blair” (1999)
Tantos anos depois de todo o hype, e a reação que o acompanhou (sem mencionar as tentativas patéticas de transformá-lo em uma franquia), como “A Bruxa de Blair” se alimenta? Ainda sendo malditamente terrível, muito obrigada. A configuração pode ser simples – três jovens vão para a floresta de Maryland para fazer um documentário sobre um mito local – mas funciona.
“Seven – Os Sete Pecados Capitais” (1995)
Um filme extremamente bonito. O drama macabro e cruel de David Fincher é todo subtexto de horror transformado em texto dramático. Alguém está matando pessoas de acordo com os Sete Pecados Capitais. É o trabalho de dois arquétipos (alguns podem dizer clichês) policiais parar o assassino: um quase aposentado Morgan Freeman, veterano de guerra que está exausto do seu mundo, e Brad Pitt, cuja alegria indiferente está para ser colocada em teste. Aqui, foque no jeito como Fincher faz esse mundo caindo aos pedaços tão horrivelmente palpável. O filme é um pouco apaixonado pelos métodos do serial killer? Talvez, mas é horrorizado por sua própria fascinação, assim como nós. Esse é um daqueles filmes que vão te fazer querer tomar vários banhos depois, com poucos resultados: a mancha deste mundo nunca vai sair.

