Suspense psicológico utiliza depoimentos de ex-membros de grupos religiosos britânicos para construir trama sobre fanatismo e controle
A nova aposta da Netflix, “Sem Salvação”, chegou a se tornar Top 1 do streaming ao apresentar uma narrativa densa sobre isolamento social, fanatismo religioso e manipulação, rapidamente se consolidando como o título mais assistido do momento no Brasil, além de desbancar outros lançamentos.
Ainda que os personagens e situações sejam fictícios, a base da obra foi construída a partir de depoimentos reais de pessoas que pertenceram a seitas no Reino Unido, incluindo organizações que continuam em funcionamento no território britânico.
“Sem Salvação”: série da Netflix foi inspirada em história real?
Lançada no dia 21 de abril, “Sem Salvação” foca em uma jovem mãe, criada em uma comunidade religiosa segregada da sociedade. O enredo se desenvolve quando conhece um homem misterioso e decide enfrentar uma trajetória perigosa, marcada por descobertas sombrias e riscos constantes.
Depoimentos reais em “Sem Salvação”
Idealizada pela roteirista Julie Gearey, a série apresenta Rosie (Molly Windsor), uma mulher que passa a ter dúvidas sobre as normas da seita Fellowship of the Divine. No grupo, o uso de tecnologia é proibido, a conduta das mulheres é rigorosamente vigiada e as regras impostas aos adeptos são consideradas extremas.

Julie realizou um trabalho de campo entrevistando indivíduos que conseguiram deixar cultos reais na Grã-Bretanha. Conforme explicou a criadora, muitos desses sobreviventes ainda lidam com as sequelas psicológicas causadas pelo tempo de submissão a ambientes autoritários. Por isso, o propósito da produção foi exibir esses cenários com foco no realismo e na humanidade das vítimas.
Cultos reais que serviram de inspiração
Apesar de a Fellowship of the Divine ser uma criação para a TV, as características foram moldadas com base em grupos existentes. Um dos pilares da pesquisa foi a comunidade Bruderhof, conhecida por promover um estilo de vida desconectado das modernidades tecnológicas e por aplicar normas severas de vestuário e comportamento.
Relatos de antigos membros dessa comunidade mencionam episódios de punições rigorosas e humilhações públicas para quem desobedecesse aos dogmas internos. A produção também utilizou referências da Plymouth Brethren Christian Church, organização que enfrenta acusações de manter uma estrutura fortemente patriarcal e de promover o afastamento social de seus seguidores.

O diretor Jim Loach destacou que, durante o processo de investigação, um dado alarmante veio à tona: existem aproximadamente 2 mil seitas ativas no Reino Unido hoje. Ao contrário do imaginário comum de grupos isolados em áreas remotas dos Estados Unidos, essas comunidades britânicas costumam estar geograficamente inseridas na sociedade, porém sem manter qualquer troca com o mundo exterior.
Preparação do elenco
O elenco também se dedicou a entender as dinâmicas de poder desses grupos para conferir maior veracidade às atuações. O ator Asa Butterfield, que dá vida ao personagem Adam, contou que buscou referências em produções do gênero para compor seu papel.
Segundo Asa, ele assistiu à série documental “Rezar e Obedecer”, que detalha crimes e abusos ocorridos na Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O ator explicou que sua intenção era compreender como o domínio psicológico consegue transformar a personalidade dos indivíduos, especialmente no caso daqueles que nunca tiveram contato com a vida fora desses sistemas fechados.


